Quando saiu do banho, já sabia o que ia fazer. Não tinha jeito - ou ela fazia, ou fazia. Bem feito, porque deixou chegar àquele ponto? Terá que recomeçar do zero. E terá que recomeçar agora, não poderá adiar. Pegou o gilete - ele era rosa, e antes servia apenas para se depilar. Agora ele tinha outras utilidades, mais lisongeiras. Um corte. Dois. Três. No começo sempre era assim, ela não sentia. E exagerava. Quatro. Cinco. Seis. O primeiro corte finalmente se fazia presente. No começo era só um fiapo de dor, depois ia aumentando. O segundo aparece. O terceiro, o quarto, o quinto, o sexto. Agora tudo doía. Ela se arrependia de tê-los feitos. Ou de, pelo menos, ter feito tantos. Mas ela não tinha tempo para pensar, o sangue saía rápido. Ela pegava papel higiênico para limpá-lo, mas ele acabava grudando na ferida. E doía. E ardia. E machucava. Jogava o papel fora, sempre com cuidado de esconder o sangue, para ninguém ver. Olhava para seu machucado - um ferimento que ela mesmo causara. Apesar de tanta dor, e de um começo de arrependimento, ela os olhava e achava que merecia mais. Em sua cabeça, já começava a pensar nos próximos. Mais um, ou dois, ou três, ou quatro. Ou cinco, ou seis. Nunca era demais. Apertava seu pulso com a outra mão, para disfarçar enquanto saía do banheiro e ia até o quarto pegar um band-aid. Com o outro braço, o machucado, abria a porta. Sorria, numa tentativa de enganar a própria mãe, que estava na sala mexendo no computador. A mãe não prestava atenção nela, e a garota finalmente pode entrar em seu quarto, para encarar seus demônios novamente. Primeiro não se sente, depois dói, e então passa.
"Quero pesar feito cruz nas tuas costas. Que te retalha em postas, mas no fundo gostas quando a noite vem."
"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir."
Vanity isn't a sin, a little narcissm wouldn't hurt.
about
i my me mine.
"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir."
Vanity isn't a sin, a little narcissm wouldn't hurt.